domingo, 3 de agosto de 2008

Tropicália

07/08/2007 - 09h00
Tropicália 40 anos: Após a Bossa Nova, movimento foi o mais influente na música brasileira
GABRIELA BELÉM da Redação

Em outubro de 1967, durante o 3º Festival de Música Popular Brasileira, promovido na época pela TV Record, surgiam alguns dos artistas que formaram o movimento musical mais influente e original do país após a Bossa Nova. Os riffs de guitarra elétrica aliados à psicodelia, à mistura de ritmos populares e à experimentação presentes nas canções "Alegria, Alegria", cantada por Caetano Veloso e tocada pela banda argentina Beat Boys, e "Domingo No Parque", interpretada por Gilberto Gil e Os Mutantes no evento, transformaram a forma de se fazer música no Brasil por gerações e movimentaram a cena cultural brasileira.
A partir daquele momento até o fim de 1968, seria instalado o cenário revolucionário que mais tarde foi batizado de Tropicália. O disco antológico "Tropicália ou Panis Et Circenses", com nítido caráter de manifesto, lançaria um sincretismo de ritmos jamais ouvido, com o rock misturado à bossa nova, ao baião, ao samba e ao bolero.
Baseados nos ícones da contracultura inglesa e nos hippies norte-americanos, os baianos Gil, Caetano, Gal Costa e Tom Zé, ao lado dos Mutantes (Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias), Nara Leão e do maestro Rogério Duprat, criaram canções baseadas na pop arte, antropofagia, concretismo e numa estética de vanguarda, em plena ditadura militar. Tudo isso aliados aos letristas Torquato Neto e Capinam.
A idéia era, sobretudo, romper barreiras comportamentais, principalmente com a defesa do sexo livre. A moda psicodélica pairava na cabeça dos tropicalistas, que a difundiram por meio da irreverência.
Revolução cultural
Modernizaram-se também outras áreas da cultura nacional. Antes mesmo do lançamento de "Panis Et Circenses", o artista plástico Hélio Oiticica já havia lançado a obra de cunho vanguardista intitulada "Tropicália", em fevereiro de 1967. O movimento sofreu influências e influenciou o Cinema Novo de Glauber Rocha. Já no teatro brasileiro, apareceram as peças anárquicas de José Celso Martinez Corrêa. Na poesia concreta, surgiram nomes como Augusto de Campos e Décio Pignatari.
Quem batizou o movimento foi o jornalista e crítico de música Nelson Motta, com um artigo chamado de "A Cruzada Tropicalista", publicado no jornal "Última Hora", em 5 de fevereiro de 1968.
A intervenção na cena cultural do país foi mais crítica do que política. Por esse motivo o movimento foi menosprezado por boa parte da esquerda que, naquela época, ou apoiava os músicos politizados, a exemplo de Geraldo Vandré, ou os puristas da bossa nova. Para os universitários da chamada "linha dura" do movimento estudantil, a guitarra e o rock eram símbolos do imperialismo norte-americano, e não deviam participar do universo da música popular brasileira.
O movimento foi reprimido pela ditadura militar após a imposição do AI5 (Ato Institucional nº 5), em 1968, com a prisão de Caetano e Gil em dezembro do mesmo ano.
Desdobramentos
Nos anos 70, Os Secos e Molhados e o grupo pernambucano Ave Sangria retomaram a atitude anárquica e de protesto, com músicas repletas de boas doses de psicodelia, glam-rock e punk. Vestidos muitas vezes de mulher, o grupo de Ney Matogrosso e os recifenses utilizaram novamente o protesto e o sincretismo de ritmos da tropicália.
Ainda na mesma mesma década, Os Novos Baianos mesclaram choro, afoxé e rock and roll em suas canções. Outros ícones da vanguarda paulistana que receberam nítidas influências do movimento foram Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e o Grupo Rumo.
Nos anos 90, o Manguebeat também foi criado a partir desse recurso tipicamente tropicalista: a mistura de elementos regionais (a exemplo do maracatu, coco e da embolada) e universais - como o rock, o funk, o dub e o rap. Não é à toa que a canção "Maracatu Atômico", do tropicalista Jorge Mautner, foi regravada pelo grupo Chico Science e Nação Zumbi, no álbum "Afrociberdelia" (1996).
Ainda hoje o Tropicalismo "faz a cabeça" de artistas internacionais como os músicos Beck e Devendra Banhart, que lançaram álbuns recentes declarando forte influência do movimento brasileiro.
Perdas recentes
Após a morte no ano passado do maestro e arranjador Rogério Duprat, um dos maiores ícones do Tropicalismo, o movimento perdeu em março deste ano o produtor musical Guilherme Araújo, que atuou nos bastidores do movimento com importantes nomes da MPB, como Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa.
Duprat, que começou na área erudita e depois se juntou aos tropicalistas, estava afastado do cenário musical desde os anos 80. O maestro se retirou da cena artística por conta de sua progressiva perda de audição. Ele ainda se aprofundou na música eletrônica, integrou a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo e foi um dos fundadores e diretores da Orquestra de Câmara de São Paulo.
Ano passado foi relançado um disco de sua autoria, "A Banda Tropicalista do Duprat" (1968), feito com os Mutantes, pela Universal.

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